Afro X foi um dos integrantes do lendário 509-E, criado no Carandiru e que ganhou grande destaque na mídia após ganhar o prêmio Hutus, de grupo revelação do ano, nos anos 2000. Afro X, juntamente ao extinto grupo, foi apadrinhado por Racionais MCs.

O critério para escrever e pra gravar, aprendi com monstros da velha escola Racionais MC’s, que foram grandes professores pra nós, principalmente pra mim. Com o Brown, Edi Rock, que estavam lá no convívio com a gente no Carandiru.” contou Afro X com exclusividade para o Portal Rap +. De lá pra cá, o Carandiru foi extinto, assim como antigo grupo 509-E. No entanto, Afro X continuou em carreira solo e tendo lançado recentemente um novo álbum intitulado “Um Brinde A Vida” e inclusive, um single lançado com Felp, do Cacife Clandestino, que está presente no disco, lançado em vinil pela Matilha Cultural.

Eu estava em Santa Catarina e ia ter um show do Cacife Clandestino e eu fui com um amigo, acabei entrando no camarim e o Felp foi uma pessoa muito receptiva, foi um cara que deu a maior atenção e eu falei pra ele pra gente fazer coisa junto

Com um novo álbum lançado em forma de vinil, Afro X conversou com Rap + contando um pouco sobre o seu novo projeto, carreira solo, parceria com Cacife Clandestino e muito mais.

Fala Tu Afro X

Andressa: Quem é Afro X? De onde surgiu o vulgo “Afro X”?
Afro X: Salve familia do portal rap mais, agradeço o convite. eu venho do rap dos anos 1980 e lá tinham as possess. e eu fazia parte de uma posse de São Bernardo do Campo e lá eu tive um contato com lideranças negras – porque o fundamento em princípio do rap era muito ligado ao movimento negro, e as questões da maioria das pessoas que faziam parte que eram negros. Nisso, conheci Malcolm X e por ser negro e descendente de africano, eu adotei Afro de afro-brasileiro e o X é em homenagem ao Malcolm X – o grande líder negro que lutou muito pelos direitos civis dos negros norte-americanos e causou um questionamento, uma evolução nas condições e nos direitos civis juntamente com o Martin Luther King.

Andressa: 509-E foi um marco na história do rap brasileiro, sem dúvidas. Quais sementes foram plantadas naquela época que hoje você colhe os frutos?
Afro X: Sem dúvida o 509-E deixou um legado muito grande que vai muito além da parte musical. O critério para escrever e pra gravar, aprendi com monstros da velha escola, Racionais MC’s, que foram grandes professores pra nós, principalmente pra mim. Com o Brown e Edi Rock, que estavam lá no convívio com a gente no Carandiru. A vivência de você estar preso no maior presídio da América Latina, a cidade do crime, onde o couro comia de verdade, várias mortes, bagulho louco, luta pela sobrevivência e a gente desenvolvendo uma atividade musical, que tinha que ter, um jogo de cintura muito grande porque de certa forma você estava dentro de uma prisão, então a gente trouxe essa vivência pra música que não podia errar. Então é um clássico o trabalho do 509-E, de refrões, de músicas ligadas ao tema. Se você ver o Provérbios 13, você vê do começo ao final, é uma música, acaba e já entra uma introdução e já entra em outra música. É muita história ali. É muito representativo. significou uma nova era no rap, o 509-E significou uma nova era. Até então teve ritmos e poesia, depois o gangsta rap, o rap politizado, depois o das muralhas pro mundão, as ideias mil grau, mil volts, tem tudo isso dentro do 509-E e o 509-E acaba sendo uma lenda porque o Carandiru foi o maior presídio da América Latina e o 509-E nasceu lá. Extinto, acabou. Mas quem viveu lá sabe que foi um dos maiores presídios e tinha uma história lá e essa história foi muito valiosa pro 509-E superar tudo e lançar um trampo de dentro do maior presídio da América Latina. A gente tinha tudo pra não conseguir e a gente conseguiu fazer. Hoje eu trago minha perseverança e de dentro de lá eu trago uma das minhas frases marcantes que é “só os fortes sobrevivem” e eu carrego isso pra minha vida. Sou um homem de muita fé, guerreiro em música, mesmo com todos os contratempos hoje de um artista independente e eu trago isso do 509-E. Não tem como, eu costumo dizer que tem os caras que falam que é gangsta rap, imagina eu que fui preso trocando tiro com a polícia. Eu sou o que, então? hahah. 509-E é o rap de verdade. E o grupo vai trazer algumas coisas no segundo semestre, eu e Dexter estamos em paz. Essa essência do 509-E eram dois guerreiros, duas figuras e agora coisas boas serão resgatadas diante da memória de um grupo que fez muita história!

Andressa: O que o Hip Hop foi e é para você?
Afro X: Hip hop é a arte que transforma, é a arte que me possibilitou ter uma visão privilegiada, porque ele é transversal, discute vários temas, faz você exercitar o corpo e a mente, então é uma arte completa. O hip hop representa muita coisa porque é uma arte que se você analisar ele acaba sendo completo, agora você também utiliza o audiovisual, tem o movimento, a escrita, a parte recitada, cantada, musicada, coreografada, exposta através do grafitti, do DJ. Hip hop é muito louco é a arte completa, é a arte do futuro!

Andressa: Como surgiu a ideia de “Um Brinde A Vida”? E por que em Vinil?
Afro X: Um brinde a vida surgiu através da ideia comemorativa, de celebração dos meus 17 anos de carreira – hoje 19, esse projeto começou dois anos atrás – e celebrando tudo de bom que vem acontecendo na minha vida, meu filhos. Hoje sou pai de 7 filhos, amo meus filhos, não me arrependo. É muito difícil essa relação, mas também é prazeroso e foi uma conquista. Outras portas que vêm abrindo, muita experiência através das letras, o amadurecimento a visão é comemorativo é pra celebrar esses anos de carreira e com isso vem o vinil, o digi-pack, já gravei o videoclipe de “Um Brinde à Vida”, que gravei em Santa Catarina, em Garopaba, onde meu filho caçula mora e na praia de Moçambique em Florianópolis. Eu quis misturar, fazer uma experiência musical com base do trap music que é o beat que proporciona a fusão com vários estilos musicais e também a questão do flow mais lírico, uso flows de speed, acho muito rico. Eu quis utilizar essa linguagem, gostei muito, to utilizando muito trap. E Um Brinde à Vida comemora tudo isso, esse bom momento na minha vida.

Andressa: Como nasceu a iniciativa de juntar inúmeras pessoas de gêneros musicais diferentes no seu novo álbum?
Afro X: Gosto muito de ouvir CD, pra eu conhecer um pouco mais com o artista e geralmente quando eu paro pra ouvir, é quando eu me identifico bastante. Nesse contexto, eu achava muito igual, porque quando você usa uma linguagem e parece a mesma batida do começo ao fim. Então eu queria usar o trap, baseado na minha vivência de um brasileiro que gosta de samba, de rock, de black music principalmente, soul, funk, rhythm & blues, reggae, blues, jazz, e o rap atual, o hip hop, quis abrasileirar essas influências – é um disco de música trap brasileira com bastante swing. E eu já queria fazer um som com os caras, oportunamente pensei em trazer todos no mesmo CD. Estamos pensando na possibilidade de fazer um show juntando toda essa galera, vai ser bem louco! É o sonho, mas vai dar tudo certo!

Andressa: Quais lições você traz da antiga escola para a nova escola do rap nacional?
Afro X: O rap é música de atitude e tem coisas que são inaceitáveis no rap, porque se a gente luta contra o preconceito a gente não pode ter nenhum preconceito, tanto de velha escola com a nova escola e assim sucessivamente. Então o rap tem postura, conduta… a música que pensa na comunidade necessariamente não é música que é só voltada para a comunidade mas música também que tem esse intuito, esse viés. Sempre focar em fortalecer os menos favorecidos, nessa luta aí a gente respeita todas as vertentes e acho que é isso que a gente tem que manter… manter um código de conduta pra gente conseguir fortalecer mais o movimento porque respeitando todas as vertentes a gente vai conseguir chegar mais longe com o nosso movimento porque o rap é a música de maior influência musical no mundo inteiro. A maioria de todos os estilos hoje estão utilizando o rap como referência então como base também. Então são essas ideias… acho que a união vai ser bom para o público, bom para ambos e bom para o movimento. Acho que essa união só vai fortalecer mais o rap e o respeito, não deixar perder as nossas origens que é utilizar algumas coisas… não pode deixar a cultura se perder e também a cultura do hip hop junto de novo. Acho que isso tá muito forte, acontece especificamente aqui no Brasil então tudo isso aí que a gente tem que estar alinhado, estudar, saber quem é quem, saber quem é na história, saber quem tá escrevendo, quem está lutando pelo movimento e a questão é que são várias vertentes de atuação, de ativista, de show, show-business. Acho que sua história não pode ser resumida pelo número de views que você tem ou de likes. Cada um tem seu valor e tem gente que representa muito mais do que de repente quem tem acesso. Acho que tem que estar sempre vinculado às raízes.

Andressa: Você aprendeu algo com a nova escola? Quais as principais evoluções que a nova escola te trouxe e como você aplicou isso em “Um Brinde A Vida”?
Afro X: Eu acho muito louco o que eu aprendi com a nova escola, é que eles também estão tendo a visão de interagir com a velha escola, eles respeitam, acho muito louco. E a união que eles têm agora, eles são bem unidos, você vê que um grupo interage muito com outro, antes não tinha tanto isso. E as produções, as produções estão de parabéns, de videoclipe, mesmo artista independente tá fazendo seu corre, fazendo as coisas acontecerem, fazendo show. E é isso aí mesmo! Só progresso!

Andressa: Como nasceu a parceria com Felp (Cacife Clandestino)?
Afro X: O Felp pra mim é um dos principais letristas do rap brasileiro, eu acompanho na medida do possível e vejo a evolução dele. Eu vejo que ele tem muita coerência, ele consegue interagir numa parada mais gangsta e numa parada mais comercial, então é um cara de visão. Tem um flow bem diferenciado. Eu estava em Santa Catarina e ia ter um show do Cacife Clandestino e eu fui com um amigo, acabei entrando no camarim e o Felp foi uma pessoa muito receptiva, foi um cara que deu a maior atenção e eu falei pra ele pra gente fazer coisa junto. Ele falou do 509-E e eu vi que ele curtia mesmo, acabou surgindo uma amizade e fui pensando num tema. O Felp é um grande parceiro! Não só o Felp, toda a família do Cacife Clandestino!

Andressa: Quais MCs e grupos de rap atuais você ouve?
Afro X: Tem vários caras da hora, mas posso citar: Gosto muito do Cacife Clandestino, do ADL, do Bitrinha, gosto muito do som dele, Haikaiss tem algumas coisas que que acho da hora, Oriente também tem músicas legais. Tribo da Periferia…

Andressa: Quais foram suas principais inspirações para começar a fazer rap, em meados dos anos 80? E quais são suas inspirações para continuar a fazer rap mais de 30 anos depois?
Afro X: A inspiração foi de um jovem que queria desabafar, tinha muita coisa pra dizer, viveu muito, mesmo sendo jovem. Dia a dia, rua, criminalidade… E o rap foi esse veículo, foi esse desabafo. Significou também a revolução. Nessa época aí a gente ainda andava de skate, nos anos 1980, e uns amigos foram competir num campeonato e trouxeram um vinil do Public Enemy e foi quando minha vida mudou. Percebi que era isso que eu queria. Depois fui ouvir Racionais MC’s e se concretizou. Depois conheci Negralha, que hoje é o DJ do Rappa, que foi que nos conduziu, nos orientou, na forma de escrita, como arrumar uma base pra cantar, que naquela época a gente não tinha condição nenhuma de gravar em estúdio, era caríssimo, só tinha home studio. Então, essas dificuldades fizeram com que tudo fosse muito verdadeiro, a gente sentia amor mesmo.
Em decorrência disso, 30 anos depois, a questão social tá muito envolvida no meu trabalho. Eu fui oportunizado dentro da prisão através de um projeto social, o 509-E, no “talentos aprisionados”. Eu quis proporcionar isso também, eu criei um projeto chamado “Movimente”, no qual eu contextualizei todas as matérias escolares baseada na linha do tempo do hip hop. Todas as matérias. E a gente começou a desenvolver esse projeto, ele cresceu e se tornou um projeto sócio-cultural e educacional. Então, o rap também é educação. Trabalhamos com jovens e adolescentes, falamos deles pra eles. Nós somos rappers mais velhos e não tinha tanta referência infantil e adolescente. Em 3 anos nós lançamos 72 grupos! O rap tem que pensar nessas formações, pode ser educação. Você pode ser um educador social e isso vai formar porque vira palestra, literatura, curso, isso tudo vai fazer com que o movimento se consolide e as pessoas consigam entender a amplitude do nosso movimento. E essas ideias viram agentes multiplicadoras!

Eu quero divulgar minhas redes.
Instagram: @afroxoficial

Além desse projeto Um Brinde À Vida, eu tenho novas músicas pra 2018, com várias participações. Com o ADL, o Bitrinho, entre outros do rap nacional e também da música. Algumas releituras do 509-E, principalmente as minhas solo, versões acústicas, diferenciadas, alguns relançamentos, algumas remix. E segundo semestre estamos trabalhando a memória do 509-E com algumas atividades, relançamento dos dois CDs, vinil, expo de fotografia, estamos produzindo um documentário, e coisas legais referente ao grupo que fez muita história e é minha raiz. Independente do Afro-X, eu sempre vou ser um 509-E.
Público, vamos fortalecer os artistas independentes! Nós estamos fazendo rap, é voltado pro nosso público, é o que nós amamos, é o que eu amo. Rap é a música mais atual do mundo, fala de diversos assuntos, é por isso que eu amo o rap. Tudo que eu tenho eu conquistei através do rap. Vamo que vamo! Vamos acreditar nos sonhos! E tamo junto! É nós! Sempre pra somar! Um brinde à vida, pode pah, pega as taças, vem brindar

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