O rapper nILL lançou seu segundo álbum no ano passado, chamado “Regina”, o projeto cheio de produções lo-fi aliada ao movimento vaporwave foi considerado um dos melhores discos de 2017. O artista gosta de explorar vários campos da música, e quando o assunto é criar, ele não tem barreiras: “Eu só deixo o coração guiar, acho que esse ai é o nILL que eu conheço, tá ligado? guiado muito pelo coração quando fala de música” explica.

Regina é uma homenagem para sua mãe que faleceu há alguns anos e serve como uma carta pra ela saber como ele está segurando a barra por aqui. “O álbum não tinha outro nome, eu já tinha pensado nesse nome desde o começo pra homenagear. O processo criativo foi bem difícil, demorei um ano pra fazer tudo, porque o meu pc tava meio zoado, tava foda de fazer os beats, eu fiz os beats todos em casa, acabei ganhando outros três do Albano 6C, do Reptil e do Estranho. Demorou um pouco por que o estúdio tava longe e tinha que ir lá gravar 5 e voltar, 6 e voltar, mas de resto foi suave. Na hora que acabou o bagulho e o ErreÁ estava com tudo na mão mixando já era, o PC deu pau.” diz o artista.

Em mais uma entrevista no quadro Fala Tu, conhecemos mais sobre o rapper de Jundiaí, da FoodGang, descobrimos um pouco mais sobre sua personalidade, novos projetos, falando sobre anímes, vaporwave, conselhos para o público e muito mais, confira abaixo!

Andressa: Quem é nILL?

nILL é um artista que gosta de explorar vários campos da música, e quando o assunto é criar não tem barreiras, só deixo o coração guiar. Eu acho que esse aí é o niLL que eu conheço, tá ligado? Guiado muito pelo coração quando fala de música.

Andressa: No seu Instagram o user é “o adotado”, por que?

Realmente eu sou adotado mesmo e eu acabei usando esse “nome” pra colocar o meu pseudônimo como produtor, fiz esse personagem para assinar produções Nill Artista, Adotado Beatmaker, agora eu to em uma fase de personificação dele de colocar uma identidade visual, enquanto isso a gente tá preparando uma história também e coloquei lá no Instagram por que na época que eu fiz era bem recente essa parada e aí hoje em dia acaba sendo meio foda, porque as pessoas acabam não me achando diretamente quando pesquisam.

 

Andressa: O que é a Sound Found Gang e quais são as principais inspirações que vocês têm?

Food Gang é um selo que formalizamos em Jundiai em 2015 e trabalhamos de modo coletivo, todos por um né? A gente mesmo se grava, cria nossas capas, criamos os beats, mixamos e masterizamos.. cuidamos de todas as áreas! Nós assinamos recentemente com a ONErpm e eles fazem a distribuição das nossas músicas, mas somos totalmente um selo independente.

 

Andressa: O que é a Sound Found Gang e quais são as principais inspirações que vocês têm?

A gente se inspirou muito nas bancas da gringa que deram certo, TDE, Odd Future.. foram um pessoal que trampou desse jeito e virou, bombardeou a internet com várias paradas, por isso a gente está sempre lançando um monte de coisa. estamos com 6 artistas mas no total estamos em 13 contanto produtores, videomakers, produtores e tal.. é uma galera

 

Andressa: Você intitula “Regina” como um álbum familiar. Qual sua relação com sua família e a música? E por que o nome de “Regina”?

Com a minha família a relação é de boa, suave, fechamento puro, minha coroa fortaleceu mas ainda assim, minhas irmãs dão suporte e eu também dou pra elas, a música acaba caminhando junto. Até o dia de hoje eu to produzindo em casa, então tem muito dessa atmosfera. Porém logo mais entramos em uma nova fase, trabalhar em um novo disco, estamos alugando um lugar para fazer um estúdio então vai ser 24 horas lá, então as músicas vão ter outra textura, as idéias vão ser outras. A minha música tem muito a ver com a minha família até agora por que eu trabalho muito em casa.

 

Andressa: Como foi o processo criativo de “Regina”?

O processo criativo foi bem dificil, demorei um ano pra fazer tudo, por que o meu pc tava meio zoado, tava foda de fazer os beats, eu fiz os beats todos em casa, acabei ganhando outros três do Albano 6C, do Reptil e do Estranho. Demorou um pouco por que o estúdio tava longe e tinha que ir lá gravar 5 e voltar, 5 e voltar, mas de resto foi suave. Na hora que acabou o bagulho e o ErreÁ estava com tudo na mão mixando já era, o PC deu pau.

 

Andressa: A presença de áudios, que torna o público mais aconchegado ao álbum, foi marcante. Como surgiu a ideia dos áudios durante o álbum?

A ideia do áudio foi quando eu estava vendo uns vídeos no youtube, ai comecei a ouvir os áudios e achei umas paradas mais humana, achei uma porrada de áudios, não consegui por tudo, mas gostei, foi dahora.

 

Andressa: Hoje você é visto como uma das personalidades mais diferenciadas do rap nacional e, ousando dizer, até a mais diferenciada. Quais são suas maiores influências fora do hip hop? E dentro do hip hop?


Minhas influências fora do hip hop são meus amigos, influência máxima mesmo, só cara batalhador mesmo, que tão no corre e alcançando um bagulho bem louco, falo do meus amigos da vida, então eles são minha influência pra caralho. Já no hip hop tem o Tyler, Kendrick também acho massa, tem o OG também, tem umas paradas na música que influência.

 

nILL tem muitas referências a animes em suas músicas.

Andressa: A presença de animes na sua vida é algo marcante. Qual a sua relação com os animes? E o que os animes te ensinaram?

Caí pra rua, descobri os animes e aí já era, foi uma relação mesmo de amizade, uma parada que me acolheu em um momento que eu não tinha consciência de nada, que aparecia umas ideias erradas. Ele me ensinou a sair de muita coisa errada, me ensinou a não desistir, me ensinou a ser ousado, a me dedicar, a ser leal, sabe? Umas paradas loucas.

 

Andressa: Qual era a sua visão de carreira antes de “Regina” e o que mudou agora?

Regina mudou muita coisa sim, na área profissional, em questão de textura do som e textura de cor. Me mudou bastante, tanto que pra mim foi um divisor de águas. Aprendi muita coisa depois, por exemplo, me expressar em entrevistas.

 

Andressa: “Regina” é hoje considerado também um álbum de vaporwave, um dos únicos brasileiros Como você se aproximou do vaporwave? E explica um pouco pra galera o que se trata o vaporwave.

Acredito eu que deve ser o único (álbum de vaporwave). Eu conheci através do Yung Buda, quando a gente formou a gang, começamos a testar os bagulhos, a encaixar as letras testar as sonoridades. É um estilo exótico porque nem todo mundo consegue casar a voz em cima, as ideias em cima, é dificil. Por isso chega a ser até exótico, você não vai ver muitos. E pô, muita gente gosta de apreciar ele sem a voz, por isso é um bagulho marcante. O instrumental rolando já agrada o ouvinte, a textura do som que dá a caracteristica dele, dá a sensação de retrô, de coisa gasta, de produção velha, nada de bateria marcante em cima, o que marca mais é a melodia. Então é isso, o vaporwave é a experiência sonora, essa é a classificação que se daria. (…) O vaporwave é um movimento que foi criado em meados de 1999 a 2000 e inicializou na internet, ele não tem uma origem específica territorial, mas ele se oficializou na internet. Eu acredito que deve ter começado no Japão mas palpito que eles nem sabiam o que era. Mas com base com as músicas que eu vi de 74 mais ou menos, já tinham essa textura de vaporwave. Mas a origem dele é na internet, nasceu nas redes.

 

Andressa: A pergunta que não quer calar e que todo mundo quer perguntar: Qual a sua relação com coxinha? hahaha

Minha relação com coxinha é de humano com alimento (risadas), não vou falar outro termo não porque eu posso me enroscar. É um bagulho que eu gosto pra caralho po e tá na tradição da família… zoeira. Mas hoje em dia eu não tenho comido muito porque é um bagulho que tá me fazendo mal, mas eu gosto sim.

nILL em um de seus shows!

Andressa: Você não se limita ao trap e ao boom bap e isso é marcante. Você pretende se aventurar em outros estilos musicais futuramente?

Sem dúvidas, eu já to preparando um bagulho diferentão pros próximos trampos oficiais e eu tô convidando pessoas fora do rap pra fazer uns trampos e essa é a meta pra mim.

 

Andressa: Qual o conselho você daria para as pessoas que pretendem se aventurar no hip hop?

Mano, o conselho que eu dou é tipo, ver se é isso mesmo que a pessoa quer e se for isso mesmo, estudar sobre o máximo que puder. Procurar falar coisas que realmente sente e não coisas que soem legais, em cima da base né, uma fonética da rima. Falar coisas que vem de você, que seria você falando, não que você ouviu alguém falar porque isso aí não cola. E o mais importante: Nasce um grupo de rap a cada um minuto no Brasil, então mano, pensa nisso!

 

Andressa: E qual o conselho você daria para o público do rap nacional? 

Bom um conselho pro publico do rap nacional é: pesquisem mano. O Brasil tem muita diversidade no rap, é só pesquisar. Tem vários caras bons que precisam ser ouvidos, tem coisas importantes pra falar, tem coisas pra ensinar, então é isso. Eu vi coisas boas de verdade e vão a festas de rap, consumam festa de rap, apoiem artistas locais e é isso. Não fiquem muito de apoiar picuinha, apoiando treta, apoiando fofoca. Acaba dando ibope pra bagulho errado, enquanto poderia tá dando ibope pra algum músico bom da sua cidade você tá compartilhando treta de dois caras da capital que nem sabem seu nome, entendeu?

 

Andressa: Recentemente, 5 meninos que faziam parte da articulação de uma roda cultural de Maricá (RJ) foram assassinados, uma das possibilidades que a delegada está trabalhando, é de que a milícia local tenha executado as vítimas porque a letra de alguns deles desagradava a milícia. Você tem algo a dizer sobre isso para o público e para a galerinha que está começando? E você sente um certo “receio” de falar sobre qualquer assunto no hip hop por medo de represálias?

Cara é, eu acho que a música em si é uma missão. Você pode levar ela pro lado da salvação, que vai salvar pessoas, sua própria pele, sua família, te dar dinheiro pra fazer as coisas, pra ajudar pessoas, fazer músicas de auto-ajuda pra erguer uns irmãos. Ou você pode usar ela pra encontrar algo maior do que você, tá ligado? Vários caras já tentaram bater contra mas dessa forma não deu certo, aí os caras bateu contra como? Estudando, ganhando dinheiro, criando ONG. Bateu contra o sistema mais forte do que falando em uma letra, porque aí você corre o risco de acontecer isso daí, cair nos ouvidos errados e você acabar sofrendo uma fatalidade. Eu não sei ao certo se foi isso mesmo que aconteceu com os moleques, mas é um bagulho que é triste cara. Me arrepia na hora que eu penso sobre isso, tá ligado? Porque é uns moleques que estavam acreditando no movimento, estavam fazendo um giro aí muito forte no Rio que era a batalha deles la.

Os caras estavam no corre igual nós né, mano, até maior que nós, porque os caras estavam organizando uma parada, um movimento que eles passam na quebrada deles e tal, realizando o sonho deles e, se foi por causa da música, acabou acontecendo uma fatalidade aí, decorrente das palavras porque as palavras tem muito poder, ta ligado? É por isso que a música tem que ser encarada como uma missão, porque ela tem poder na sua mão, poder de falar, poder de tocar no coração das pessoas e isso é foda. Então o conselho que eu dou é isso aí, você pode se salvar, salvar mais pessoas ou girar em círculos e acabar perdendo pessoas que você gosta também.

Eu não cheguei a sofrer nenhum tipo de repressão também porque eu não abordo assuntos radicais, eu costumo abordar assuntos que me incomodam no meu cotidiano, no meu ponto de vista, então não chega a afetar ninguém nesse quesito de confrontar, mas é uma parada que quando eu comecei a escrever eu pensava muito nisso, de ser um bagulho mais militante. Mas aí depois eu conheci uns raps diferentes, uns raps mais minha cara e aí o público respondeu de um jeito e eu comecei a seguir essa linhagem que eu to hoje e aí foi isso. Eu não cheguei a fazer músicas contra o sistema e aí o ataque foi bem mais forte, porque o sistema não tá nem percebendo nós ali jogando, mas nós tá se articulando e as coisas vão acontecendo. E pô, não dá em nada né, eles nem sabem que a gente existe, os caras que realmente deveriam ser afetados por essas ideias. A gente vai passar na mão dos subordinados deles e esses caras vão chegar só no ódio e por isso que não dá em nada.

 

Andressa: Quais são os principais planos para 2018? Você pode compartilhar conosco?

2018 eu tô com um projeto aqui finalizado quase e eu quero filmar e terminar alguns clipes do disco também antes de anunciar algo novo. Além de várias colaborações, além de colaborações fora da música e fazer umas paradas assim. Nada muito grande ainda, porque como eu disse, eu to com umas ideias pessoais e só quero entrar pra fazer um album quando tiver com uma estrutura massa, mas temos muitos compilados aí nas playlists, podem ter certeza.