Com a participação especial do vocalista da banda Dead Fish, Rodrigo Lima, single é inspirado na música “Jesus Chorou” dos Racionais MC´s e no filme Blade Runner.

“Eu vi coisas que vocês não acreditariam. Ataque de navios em chamas no flanco de Orion. Eu assisti armas de césio brilharem na escuridão no portal de Tannhäuser. Todos esses momentos serão perdidos no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer.” Uma das cenas finais de Blade Runner (1982) contém um dos monólogos mais emblemáticos do cinema. Depois da luta com o caçador de androides Rick Deckard, o replicante Roy Batty o salva de uma queda do terraço onde brigavam. A chuva caindo serve como uma moldura para a fala do androide que revela uma melancolia em retratar a chegada da morte.

Roy Batty é uma máquina, mas capaz de demonstrar o finito e o infinito que existe no homem. Conforme Kierkegaard, o ser é uma síntese de temporal e eterno, de liberdade e necessidade. A morte seria uma sensação experimentada lentamente durante a vida, o que é evidenciado na busca do personagem em enganar o próprio fim. No entanto, para o indivíduo despertar a sua essência, ele deve primeiramente assumir o desespero e perceber que é mortalmente doente.

Nesta faixa, Yannick Hara divide a composição com Rodrigo Lima (Dead Fish) que traz elementos da manifestação do desespero já discutido por Kierkegaard. Na primeira forma, o ser não é capaz de exercitar a sua existência passando para a segunda fase que consiste na percepção de viver de maneira incorreta, afinal “o ritmo é estar no mesmo foco que o teu?”. No estágio final, o sujeito possui a consciência de sua situação “trabalho e confio ordenadamente” e a sua vontade passa a ser a de libertar a si mesmo. Aqui ele se encontra com o seu eu e aceita uma batalha interna conforme o verso “sozinho eu sou agora, o meu inimigo íntimo”, uma referência direta a música “Jesus Chorou” do Racionais MC’s.

Apesar do androide se passar por um vilão, a sua última frase marca uma trajetória semelhante a jornada do herói onde ele abandona o seu mundo depois de se deparar com um conflito interno. Entretanto, a sua recompensa, se é que ela existiu, foi o entendimento do que ele realmente era. O fim da cena é marcado por uma reflexão interessante sobre a vida, nas palavras do personagem Gaff sobre a androide Rachael “que pena que ela não viverá, mas quem vive?”.

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