Artistas de peso no hip-hop estão usando sua relevância na indústria para tentar validar o uso da inteligência artificial na música. A movimentação ganha força com alguns nomes do Rap começando a admitir que estão utilizando a IA em seus trabalhos, como Tyga e Fenix Flexin revelando ao público que a aplicação fizeram o uso em trabalhos mais recentes, reproduzindo um discurso alinhado ao de grandes executivos e produtores envolvidos no mercado de tecnologia.
Em entrevista concedida à revista VIBE sobre o álbum $TARFACE, o rapper Tyga confirmou ter recorrido à IA para gerar timbres de sintetizadores e solos de guitarra no projeto. Ao defender sua escolha, ele comparou o momento atual ao surgimento do Auto-Tune;
“EU NUNCA DISSE QUE NÃO USEI IA. DISSE QUE ELA NÃO TEVE NADA A VER COM O PROCESSO DE GRAVAÇÃO. NÃO TEM NADA DE ERRADO EM USAR UMA NOVA TECNOLOGIA COMO FERRAMENTA. ACOMPANHE OS TEMPOS OU FIQUE PARA TRÁS.”, declarou.
O discurso foi parecido com o de Fenix Flexin ao admitir o uso de ferramentas sintéticas na faixa “Rubberz”. Após ter negado inicialmente o recurso, o rapper garantiu que a tecnologia atuou de forma externa e não na gravação de sua voz.
Interesses comerciais e o peso dos veteranos.
Por trás da tentativa de apresentar a IA como um passo inevitável, figuram produtores veteranos que possuem cargos e investimentos diretos em empresas do setor. Timbaland e will.i.am assumiram o papel de principais porta-vozes dessa transição. Criador da gravadora Stage Zero Entertainment e parceiro da plataforma Suno, Timbaland costuma resumir sua posição de forma direta: “Isso não é algo para se ter medo, é algo que precisamos usar”.
Já will.i.am, fundador da FYI.AI, busca legitimidade na história da própria cultura de rua. Em entrevista dada à CNBC, o produtor estabeleceu um paralelo direto entre os geradores automáticos e a criação do hip-hop.
“Imagine que é 1970 e estamos falando de jazz. Um músico de jazz diria: ‘O que você acha desses samplers que estão chegando?’. Acontece que essa se tornou a forma do hip-hop de amostrar, reconfigurar e recortar. Não posso ser tão crítico da IA porque fiz uma carreira amostrando música”, justificou.
https://www.youtube.com/watch?v=sSiaB90XpII
Rejeição da cena e o recuo de Kanye West.
Apesar do empenho em equiparar os algoritmos ao Auto-Tune e ao sampling, a reação do público e de produtores independentes continua marcada por críticas éticas e preocupações com direitos autorais. O próprio Timbaland enfrentou forte repercussão negativa ao ser acusado de subir a produção e a tag do produtor independente K Fresh em uma plataforma de IA sem autorização.
O impacto da rejeição dos fãs ficou evidente na trajetória recente de Kanye West. Após utilizar filtros de voz sintéticos em VULTURES 2 e em prévias do disco BULLY, Ye voltou atrás diante da reação do público. Em publicação no X pouco tempo depois, o artista afirmou que estava odiando a tecnologia e que regravaria todo o material. A promessa foi cumprida e a versão final de BULLY chegou ao público com vocais 100% humanos.
A relação turbulenta do rap com essas ferramentas também coleciona desdobramentos legais divulgados pela imprensa Recentemente a Complex notíciou que um foi processo aberto na Califórnia por um produtor anônimo, Ye é cobrado em 110 mil dólares pela criação de modelos vocais sintéticos, comprovando que a tentativa de impor a inteligência artificial na cena ainda enfrenta grande resistência.
