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A moda e o Hip-hop

A estética como manifestação política ao longo da história possibilitou que grupos expressassem suas ideias silenciosamente, mas de forma gritante. Nos anos 1990, os códigos das ruas foram refinados pelas etiquetas, mas também levantaram marcas que nasceram dessa verdade e transformavam em roupas histórias humanas, estratégias de sobrevivência e os cinco elementos da cultura hip-hop (a música dos DJs, o grafite, as rimas dos MCs, a dança dos b-boys e b-girls e o conhecimento dos fundamentos).

Sem acesso a produtos originais de luxo, os jovens da periferia de Nova York, e depois outros ao redor do mundo, sequestravam símbolos burgueses, enquanto reinventavam tudo com grandes ideias de customização e styling. Para grande parte dos designers, isso é fascinante. Segundo Carl Jones, criador da Cross Colours, os jovens hoje curtem as silhuetas, ajustes e gráficos criados nos anos 1990. Não haviam mídias sociais, mas eles estavam no Yo MTV Raps, em seriados como Fresh Prince of Bel-Air (com Will Smith, que em português virou Um Maluco no Pedaço) e em muitos clipes. Hoje, nessa nova fase, ainda existem os vídeos e a TV, mas são as redes digitais que trazem os novos consumidores, inclusive no Brasil.

A Cross Colours nasceu em 1989, em Los Angeles, com cores hipnotizantes e slogans como “Roupa sem preconceito” e “Educar para elevar”, mensagens necessárias dentro da comunidade periférica nos EUA. A marca foi divulgada e apoiada por artistas como Snoop Dogg, Run DMC, Dr. Dre, Paula Abdul e Stevie Wonder, e chegou a valer 100 milhões de dólares, atraindo assim outros empreendedores negros para o mercado.
Carl gerou milhares de empregos em sua comunidade e ficou conhecido pelo clima do QG da grife, por onde passavam os nomes que bombavam na música. É essa vibe que tem atraído de volta consumidores que eram adolescentes na época e jovens

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de hoje que querem se conectar com aquela cena. O impacto que esse movimento teve na moda é atemporal e vai continuar atraindo jovens para sempre. Hoje as peças da marca estão no closet de Rihanna e no clipe de Finesse, da Cardi B.

Nascida em 1989, a Karl Kani, criada por Carl Williams, ganhou fama graças a um nome: Tupac Shakur. Um dos nomes mais icônicos do rap de todos os tempos, assassinado em 1996, ele posou para várias campanhas e ações da marca, além de ter se tornado amigo do designer. Tupac usava as roupas da marca antes de conhecer o dono. Segundo Williams, eles marcaram uma reunião, subiram para a sala dele e, enquanto estavam lá, Pac nem olhou para sua cara. Quando entrou na sala, o rapper só disse: ‘E aí?’ enquanto escrevia um roteiro de um filme. Enquanto ele digitava, eles tiveram uma conversa inteligente sobre cultura negra. A única vez que ele parou de digitar foi quando Carl perguntou: ‘Pac, quanto você cobraria de mim para fazer uma propaganda?’ Ele disse: ‘Cara, não vou cobrar de você. Você é negro. Não cobro do meu povo por nada.’ O rapper manteve a palavra e duas semanas depois estava em Nova York. Fizeram uma sessão de fotos e desde então, viraram amigos. Williams conta sobre isso no documentário Fresh Dressed (Netflix), um registro sensacional sobre a moda ligada ao hip-hop, que cita outras marcas, como a Coogi, usada por nomes como Notorious Big. A marca ressurgiu levantada por uma nova geração de rappers e influencers e tem uma de suas camisetas mais icônicas no vídeo La Modelo, também de Cardi B, a grande hitmaker da hora.

Carl Jones, da Cross Colours, é fã de duas fashionistas e empreendedoras brasileiras, as gêmeas Tasha e Tracie Okereke, 22 anos, criadoras do projeto Expensive $h1t – os designers as conheceram nas redes. Com foco no garimpo e na customização, a marca, nascida no Jardim Peri, periferia de São Paulo, nasceu, segundo elas, da necessidade de se posicionar em um ambiente de vulnerabilidade social e criar roupas para jovens de regiões como a delas. As gêmeas afirmam que o objetivo delas não é atingir meninas hype que procuram uma it-girl para se inspirar. Elas querem falar com as meninas de quebrada que têm estilo, mas não têm dinheiro.

Fato é que a estética hip-hop é periférica em sua origem e de lá retirou boa parte de sua força e seu poder criativos. O lugar de marginalidade, por causa das opressões estruturais, também é um lugar de potência. É preciso que quem vive isso possa tirar proveito dessa potência, desbravar caminhos, transformar em criatividade e também em dinheiro. Tudo isso é político no sentido de romper com uma história única de estéticas eurocêntricas, trazendo para nós não só uma maneira de existir dentro desse meio, mas também outras possibilidades de existência no mundo.

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