Coluna Rapfellas: Jerry Krause é vilão ou injustiçado? A versão do executivo que desmontou o Chicago Bulls de Michael Jordan

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Jerry Krause tratado como vilão em Space Jam- O Jogo do Século

Após a série documental “The Last Dance” uma das perguntas que ficam é: Jerry Krause é vilão ou injustiçado?

Hoje o assunto não é música. Bem, todo fã de esporte acompanhou com atenção a série “The Last Dance” (Arremesso final) – produzida pela ESPN em parceria com a Netflix- e de lá tirou duas conclusões por conta da narrativa imparcial: Michael Jordan é o maior de todos e Jerry Krause destruiu tudo.

Uma coisa que não se pode negar é que o documentário claramente passou por alguns vetos ou ocultações de histórias fundamentais, principalmente quando se fala do Jerry Krause, ex general-manager dos Bulls. Obviamente, pelos depoimentos terem sido colhidos em um momento após as morte de Krause (2017), o lado dele da história ficou por de baixo dos panos. Isso fez que toda a carga e estigma de vilão fosse dada à ele.

Antes de morrer, Jerry escreveu um livro de memórias, que não foi finalizado, onde conta com clareza toda a sua visão sobre o que estava acontecendo e razões para tais atitude. O repórter da NBC Sports Chicago, KC Johnson, conseguiu acesso e autorização a alguns trechos. Logo no começo Jerry escreve “Agora, vou transportá-lo, leitor, a um lugar onde ninguém de fora do Bulls esteve: uma reunião no começo de julho de 1998. Estavam presentes Jerry Reinsdor, eu, Jim Stack (GM Adjunto), Al Vermeil, os médicos e cirurgiões do time, Irwin Mandel (VP de Finanças) e Karen Stack (Assistente de GM)”. Isso dá o início de sucessivo fatos que mostram uma narrativa um pouco contrária ao que foi dada na série.

Sobre a dispensa do treinador Phil Jackson, antes mesmo da temporada 1997/1998 começar, Krause revela “Tínhamos o melhor técnico da liga, Phil Jackson, que, sem o conhecimento do público, não queria treinar um time em reconstrução e havia nos informado antes da temporada começar que ele desejava ir para Montana e tirar pelo menos um ano sabático”. Logo após revelar as prováveis dispensas que iriam acontecer no elenco dos Bulls, ele continua a falar de Phil “Será que conseguimos fazer Phil treinar o time sem um pivô e um ala-pivô estabelecidos, provavelmente sem Pippen, e com basicamente um banco inteiro novo e expectativas malucas de que ’em Michael nós confiamos’ pode vencer sem ajuda? Sem a menor chance”.

Durante a reunião da direção dos Bulls, Jerry detalha que discutiram sobre a situação de cada jogador, até chegarem num denominador comum. “A primeira pergunta que fiz foi o quanto as pessoas achavam que conseguiríamos extrair de Luc Longley, que seria um agente livre e que tivemos que descansar periodicamente durante os anos anteriores devido à instabilidade de seus tornozelos. Al e os médicos criam que ele iria se deteriorar rapidamente.

Próxima pergunta: Rodman? Cada um na reunião estava preocupado que as aventuras de Dennis fora da quadra tinham cobrado seu preço, e que ele estava jogando na reserva do tanque ao final da temporada. OK. Sem pivô, sem ala-pivô, pouquíssimo espaço salarial para assinar qualquer um de qualidade para substituí-los. Quem defenderia o garrafão se Jordan e Pippen voltassem? Quem pegaria os rebotes?

Vamos a Pippen. Ele teve duas cirurgias grandes em dois anos, uma delas no final do verão, propositalmente desafiando nossas instruções de fazê-la mais cedo a fim de não perder jogos na temporada regular. Ele quer, com razão, ser pago com salário de superestrela. Vale o risco, principalmente se não conseguirmos achar um pivô e um ala-pivô, e ele e Michael precisarem carregar o time nas costas para um novo técnico? Duvido muito.

Será que Michael consegue continuar sua grandeza sem pivô, ala-pivô e talvez sem Pippen? Será que Bill Russell, o maior companheiro de time que já existiu, conseguiria ter vencido sem grandes jogadores ao seu redor? Não. Michael já deixou bem claro que não vai jogar para outro técnico além de Phil. Phil já nos disse que vai embora. O que Michael vai fazer?

Os jogadores de apoio importantes como Steve Kerr e Jud Buechler são agentes livres que podem conseguir mais dinheiro de outros times do que nós conseguimos oferecer sob as regras do teto salarial”, escreveu. Jerry conclui o seu desabafo com a narrativa de que, no final das contas, protegeu o futuro de cada atleta que iria sair da equipe ao não falar dos possíveis problemas que eles poderiam gerar

“Uma coisa que de fato fizemos foi nos assegurarmos que nenhuma informação que pudesse comprometer as chances de qualquer jogador assinar um bom contrato vazasse daquela reunião. Phoenix deu segurança vitalícia para Longley na forma de um contrato de cinco anos e muitos dólares. Três anos depois, ao ser despejado pelo Suns em um desavisado Knicks, Longley se aposentou e foi para seu país nativo. Rodman jogou mais 35 jogos, sem nunca voltar à sua forma anterior.

Conforme o verão passou e os jogadores foram expulsos dos centros de treinamento pela liga – o que significou que a temporada não começaria até o final de janeiro -, a situação piorou. Michael cortou seu dedo num cortador de cigarros, o que o impediria de jogar durante a temporada inteira. Em sua defesa, ele poderia ter omitido essa informação e assinado um contrato imenso conosco. Mas foi honesto e nós fomos informados da situação de sua mão. Ele não queria jogar num time em reconstrução, e manteve sua palavra.

Em janeiro, quando a temporada estava prestes a começar e os agentes livres podiam ser assinados, osa gentes de Pippen nos pediram para fazermos uma favor a Scottie: uma sign-and-trade com Houston, através da qual Scottie podia conseguir $20 milhões a mais do que por um contrato simples com eles. Jerry e eu demos esse presente de despedida a ele. Liguei para Steve e Jud e informei-os da situação, dizendo para pegarem o primeiro bom contrato que os oferecessem, porque não poderíamos cobrir a oferta. Eles mereciam. Aí está, a verdade.”.

Agora que foi buscado e mostrado os dois lados da moeda fica a pergunta:  Jerry Krause, vilão ou injustiçado?