Lilia Moritz Schwarcz analisou “Black is King” e afirmou que “causa estranheza que a cantora recorra a imagens tão estereotipadas e crie uma África caricata e perdida no tempo das savanas”

O novo álbum visual de Beyoncé, “Black is King”, tem repercutido bastante desde o seu lançamento na última sexta-feira exclusivamente na Disney+, que ainda não chegou no Brasil. A história, que traz uma exaltação da cultura negra ao recriar a narrativa de “O Rei Leão” vista por um jovem negro, foi recentemente analisada e criticada pela antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz. Lilia compartilhou uma visão parecida com a da rapper e ativista NoName, que também criticou o trabalho de Bey.

Em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, a professora da USP afirmou que o projeto de Beyoncé “chegou em uma boa hora” visto os protestos após o assassinato de George Floyd. Mas, segundo a professora, “causa estranheza que a cantora recorra a imagens tão estereotipadas e crie uma África caricata e perdida no tempo das savanas”.

“Nesse contexto politizado e racializado do ‘Black Lives Matter’, e de movimentos como o ‘Decolonize this Place’, que não aceitam mais o sentido único e ocidental da história, duvido que jovens se reconheçam no lado didático dessa história de retorno a um mundo encantado e glamorizado, com muito figurino de oncinha e leopardo, brilho e cristal”, continuou Lilia.

Em resposta, a cantora Iza usou seu Instagram para rebater as afirmações de Lilia. A cantora repreendeu a chamada para o artigo, no qual apresentava: “Diva pop precisa entender que a luta antirracista não se faz só com pompa, artifício hollywoodiano, brilho e cristal”.

“Lilia Schwarcz, meu anjo, quem precisa entender SOU EU. Eu preciso entender que privilégio é esse que te faz pensar que você tem uma autoridade para ensinar uma mulher negra como ela deve, ou não, falar sobre seu povo. Se eu fosse você (valeu Deus) estaria com vergonha agora. Melhore!”, escreveu Iza nos stories de seu Instagram.

Logo após a publicação, outros influenciadores e lideres do movimento negro também se posicionaram. Foi o caso da jornalista Maíra Azevedo, conhecida como Tia Má. “O erro é uma mulher branca acreditar que pode dizer a uma mulher preta como ela pode contar a história e narrar a sua ancestralidade”, informou em publicação no Instagram. “Lilia é uma historiadora, pesquisa sobre escravidão, mas está longe de sentir na pele o que é ser uma mulher preta”.

Tia Má ainda respondeu aos seguidores que se incomodaram com a postagem. “O racismo é tão cruel que a primeira coisa que fazem é mandar ler todo artigo! Foi, exatamente, após ler todo texto que achei fundamental me posicionar”, informou. No comentário, falou sobre a linguagem do texto que traz, segundo ela, traz “uma coleção de palavras difíceis, para dar aquele distanciamento que academicistas adoram” e ressalta que o que a incomodou, de fato, foi “o corpo do texto mesmo”.

Depois de receber muitas críticas, a escritora publicou um pedido de desculpas em seu Instagram. Ela agradeceu aos comentários e sugestões e reafirmou ter gostado do trabalho da norte-americana. “Gostaria de esclarecer que gostei demais do trabalho de Beyoncé. Penso que faz parte da democracia discordar. Faz parte da democracia inclusive apresentar com respeito argumentos discordantes. Já escrevi artigo super elogioso à Beyoncé, nesse mesmo jornal o que só mostra meu respeito pela artista. E por respeitar, me permiti comentar um aspecto e não o vídeo todo”, se explicou Lilia.

Confira todos os posts citados abaixo.

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Como tudo que Beyoncé faz, seu novo álbum visual, Black is a king, chega causando polêmica e trazendo muito barulho. Ele se baseia no projeto The Lion king: the gift, álbum de 2019, lançado conjuntamente com o filme da Disney. Nele, a cantora e compositora retoma a história clássica de Hamlet, personagem icônico de Shakespeare, mas a ambienta em algum lugar perdido do continente africano.O Hamlet de Shakespeare se passa na Dinamarca e conta a história do príncipe que tem como missão vingar a morte de seu pai, o rei, executado pelo próprio irmão, Cláudio. Traição, incesto e loucura são temas fortes da trama e da própria humanidade, de uma forma geral. Já a versão da Disney é ambientada na África e tem como personagem principal uma matilha de leões – os “reis dos animais”. No enredo, o filho Simba, herdeiro do trono, instado pelo irmão invejoso, desobedece o pai e, não propositadamente, acaba sendo o pivô da morte dele e de um golpe de Estado. O tema retoma a culpa edipiana do filho que não conseguindo vingar ou salvar o pai, perde seu prumo na vida e esquece sua história. Já Beyoncé, evoca mais uma vez a tragédia de Hamlet, mas inverte a mão da narrativa. Simba vira um menino negro que procura por suas raízes para conseguir sobreviver no mundo racista norte-americano de 2020. Só não era necessário esteriotipar dessa maneira uma África isolada e perdida no mundo com muitos leopardos e oncinhas. Melhor Beyoncé sair da sua sala de estar e tomar mais ar de realidade. (Matéria completa na Ilustrada, Folha de. S Paulo)

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O erro é uma mulher branca acreditar que pode dizer a uma mulher preta como ela pode contar a história e narrar a sua ancestralidade. A branquitude acostumou a ter a negritude como objeto de estudo e segue crendo que pode nos dizer o que falar sobre nossas narrativas e trajetórias. Lilia é uma historiadora, pesquisa sobre escravidão,?mas está longe de sentir na pele o que é ser uma mulher preta. @beyonce do alto da sua realeza no mundo pop nunca deixar de ser negra, mesmo sentada no trono em sua sala de estar. A branquitude segue acreditando que pode nos ensinar a contar nossa própria história. Enquanto todas as pessoas negras se emocionam, se reconhecem e se identificam, a branca aliada diz que #beyonce deixa a desejar! É isso! No final nós por nós e falando por nós! Como diz um provérbio africano: “enquanto os leões não contarem suas próprias histórias, os caçadores seguirão sendo vistos como heróis”… E aqui, quando a gente conta, dramatiza e sonoriza querem apontar o roteiro! Parem! Estamos no comando das nossas narrativas! #povopreto #amor #raizes #ancestralidade #blackisking #bey #beyoncè

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Agradeço a todos os comentários e sugestões. Sempre. Gostaria de esclarecer que gostei demais do trabalho de Beyoncé. Penso que faz parte da democracia discordar. Faz parte da democracia inclusive apresentar com respeito argumentos discordantes. Já escrevi artigo super elogioso à Beyoncé, nesse mesmo jornal o que só mostra meu respeito pela artista. E por respeitar, me permiti comentar um aspecto e não o vídeo todo. Agradeço demais a leitura completa do ensaio. Penso que o título também levou a má compreensão. Dito isso, sei que todo texto pode ter várias interpretações e me desculpo diante das pessoas que ofendi. Não foi minha intenção. Continuamos no diálogo que nos une por aqui.

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