O mais novo álbum do jovem rapper baiano Baco Exu dos Blues, nos faz seguir os exemplos dele, Jean-Michel Basquiat, Kanye West e Jesus Cristo para não obedecermos padrões pré-estabelecidos pela sociedade. Sejamos livres.

A dor do Baco é genuína. O desabafo do Baco é sincero. O grito de liberdade do Baco é singular. A originalidade do Baco é surpreendente.

Quem conheceu Diogo Álvaro Ferreira Moncorvo, o Baco Exu do Blues, em “Sulicídio” viu um artista totalmente diferente em “Sinfonia do Adeus”. Agora no novo álbum “Bluesman”, o baiano de 22 anos conseguiu colocar uma lírica sem igual nos últimos dois anos.

O Baco não é o fodão, não esbanja poder e não joga rios de dinheiro para o alto. Ele é gente como a gente. Quantas vezes nos perguntamos os “porquês” das coisas? Em “Bluesman” o rapper desabafa o que está entalado na garganta e na cabeça. Entender que não precisa seguir rótulos para ser o você mesmo é a chave para sentir o álbum lançado no dia 23 de novembro.

Em cada uma das 9 faixas, que estão no disco há um sentimento, o jovem baiano te faz gerar uma empatia e até uma representatividade: Luta contra o racismo, depressão, bipolaridade, codependência, amor, pensamentos suicidas… Mergulhar em “Bluesman” te faz refletir a se cuidar, se respeitar e se valorizar.

Fomos doutrinados a crescer pensando que temos um destino certo. Se você é branco e nasceu na zona sul do Rio de Janeiro ou na área de Jardins de São Paulo, o mundo já te reservou um emprego de grande importância numa mega empresa, passando por todos os ciclos estudantis. Se você é negro e nasceu na favela da Rocinha ou no Capão Redondo, aí meu amigo, chegar aos 30 anos é muito e se conseguir terá que acordar todos os dias às 4h da manhã e pegar o transporte público para sustentar sua família. “Bluesman” veio para acabar com esse rótulo. Ser bluesman é não se entregar a dogmas, doutrinas e ao destino. Ser bluesman é se superar, é fazer a diferença primeiro em você e depois no mundo. Todos nós temos dias ruins, momentos difíceis na vida, ansiedade, stress, angústia, cansaço, enfraquecidos, temos a sensação que as coisas que nos perturbam não irão melhorar e acabamos desistindo dos nossos objetivos. Nesse álbum, Baco veio para lembrar que alguns dias são melhores que outros e mesmo que você esteja num dia ruim, tem sempre alguém para te ajudar, nem que essa rota de fuga seja o disco dele.

Assim como o jovem Basquiat, que quebrou os rótulos na arte norte-americana, Baco também conseguiu invadir as vidas de todas as pessoas em “Bluesman”, mesmo que o público-alvo sejam as minorias, onde ele incentiva que elas se libertem daquilo que as fazem se sentir que são limitadas. Quem um dia ia dizer que um negro da periferia de New York ia ser aclamado pelas mentes mais célebres dos Estados Unidos, inclusive namorar Madonna, a maior estrela do pop? Quem um dia ia dizer que um negro baiano estaria no time classe A do rap nacional? Talvez esse seja o motivo que o ele se auto domine o Kanye West da Bahia. O lendário rapper de Chicago é um bluesman. Um produtor musical com ideias fora da caixa, um homem de negócios de dar inveja a muitos empresários e um estilista que sempre está na tendência. Mas assim como nós ele tem problemas, como a sua bipolaridade. No dia que ele disse a frase “A escravidão foi uma escolha”, Kanye pensou como um bluesman, afinal na sua cabeça todos os negros tinham que pensar que deveriam quebrar rótulos e se libertar, mas meu querido YE, ser um bluesman não é fácil. Espalhar a mensagem como o Baco fez nesse disco, sim, é contribuir para que cada um tente libertar verdadeiramente o que tem dentro de si.

Falando em quebrar paradigmas, como o Baco canta na primeira faixa do disco: “Me escuta quem cê acha ladrão e puta/ Vai me dizer que isso não te lembra Cristo!?”. Olha só, o Messias é um bluesman! O filho de Deus, o homem que devia ser tratado como o rei dos reis, quis andar num simples burrinho, andar com ladrões, bebuns e prostitutas, comer pão e peixe com simples pescadores. Parabéns, Baco! Você acertou. Jesus é blues.

Ainda no tema de divindades, recordo que em “Esú” ele canta: “A dor some ao ver que os deuses têm inveja dos homens/ O mundo é fruto da nossa imaginação/ Será que somos deuses ou a sua criação?”. Agora em “B.B King” ele diz: “Sempre que gozo dentro eu me sinto profano/ Ela sorri e fala: Baco eu te amo/Se lembre: Você é humano!”. Ele mais uma vez nos questiona se somos deuses ou não, afinal gerar uma pessoa é o maior ato de criação, coisa que só deveria ser destinado aos deuses, por isso ele se diz sentir profano.

Baco Exu do Blues conseguiu fazer um álbum de blues, sem guitarra, sax, trompete e gaita. Ele fez um disco com a voz da alma, não somente dele. Tim Bernardes, 1lum3, DKVPZ, Bibi Caetano e Tuyo deram um toque de suavidade que nos fazem viajar ainda mais nas músicas.

Ele começa o disco com “Bluesman” e termina com “B.B King”, curiosamente “Blues man” é o nome de uma música do B.B King. “Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos, primeiro ritmo que tornou pretos livres.”, a lírica e a atenção para a luta contra o racismo é algo impressionante nessa faixa onde em cada linha ele solta o grito de liberdade que o blues deu aos negros americanos. O primeiro ritmo onde eles conseguiram entrar no mercado artístico do país. Antes desvalorizado, os negros introduziram o blues na mente da classe alta, onde aí sim foi visto como algo bom. Assim como o rock, o jazz, o funk, o soul e demais coisas que como o rapper canta “Era preto, e era coisa do demônio, e depois virou branco e foi aceito”. Outro grito de liberdade vem na comparação que ele faz em “Preto e prata”. Assim como a prata é encontrada em maior quantidade do que o ouro, mas é menos valorizada, a maior parte da população do Brasil, que é preta e parda, também é desvalorizada. Um detalhe importante é que nas ilustrações das músicas nos veículos de mídia, as imagens aparecem dentro de um quadrado que representa a prata na tabela periódica. “Kanye West da Bahia” é um basta, uma forma de dizer que agora ele se sente livre para fazer o que quiser. Baco entende que não é mais só um rapper, um preto educado e um preto inteligente (aliás, nunca digam isso para ninguém). Agora ele sabe que é uma pessoa importante.

Amor e sofrimento são palavras tão distantes e tão próximas que chegam a nos confundir. “Queima a minha pele”, “Me desculpa Jay-z”, “Flamingos” e “Girassóis de Van Gogh” entram no coração como um desabafo perfeito que queremos fazer por aquele amor não correspondido ou que nos fez sofrer. Músicas perfeitas para aquela madrugada chuvosa.

“Bluesman” é arrebatador, reflexivo, seco, direto e reto. O que mais de incrível tem neste álbum? É que todos amaram o preto mais odiado que já foi visto!