Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, do Brasil de Fato, o rapper Rashid criticou a postura de ouvintes de rap consciente, como Racionais MC’s, que apoiam políticos de direita como Nikolas Ferreira e Pablo Marçal. Para o artista paulista, essa desconexão com as pautas periféricas demonstra como o gênero vem sendo tratado de forma superficial por parcela do público.
“Isso é uma anomalia completa”, afirmou o MC ao analisar o esvaziamento ideológico no consumo de música urbana. Rashid pontuou que o hip-hop nasceu como um grito de sobrevivência e ferramenta de letramento contra a opressão do Estado, alertando que enxergar a cultura apenas como produto de entretenimento descaracteriza a luta do movimento.
“[…] Porque aí a gente consegue evitar o fenômeno da pessoa que escuta Racionais só enquanto peça de entretenimento e tem a sua identidade formada pelos Pablos Marçais da vida e Nikolas Ferreiras, sabe? Isso é uma anomalia completa dentro do público da música rap. E a gente tem isso hoje.”
Segundo o artista, o afastamento desses valores fundamentais abre espaço para que a cultura seja cooptada por discursos antagônicos ao hip-hop. Com isso, o que sempre foi um estilo de vida transformador corre o risco de ser reduzido a um “lifestyle” comercial sem substância.
“[…] tudo o que era o nosso estilo de vida, na essência mais pura da expressão, o estilo de vida, foi transformado num lifestyle, né? Esvaziado no sentido de engajar mais e vender mais. ‘Ah, vamos fazer isso porque a molecada gosta’. Então esse é o perigo, né? Quando a nossa cultura passa a servir de base apenas para isso. Porque a partir do ponto em que não engajar mais, ela vai ser substituída, como sempre é no mercado.”
A reflexão sobre o cenário atual acompanha o lançamento de seu sexto álbum de estúdio, chamado Cumulonimbus, que chegou às plataformas no último dia 11 de agosto, no Dia Mundial do Hip-Hop. O projeto reúne 15 faixas e conta com participações de nomes como Emicida, Projota, Luedji Luna, Kamau e Rael.
Um dos pontos altos do trabalho é a faixa “Ouro, Mirra e Incenso”, que promove o reencontro entre Rashid, Emicida e Projota na mesma música. A abertura do disco traz sample de “Paula e Bebeto”, clássico de Milton Nascimento e Caetano Veloso, refletindo a vivência que Rashid teve em Minas Gerais durante a juventude.
Reparação e contribuição feminina
Durante a conversa, o rapper também destacou a importância das mulheres na construção da cultura hip-hop e a necessidade de reconhecimento histórico. Na faixa “Criado por Mulheres”, ele homenageia matriarcas familiares e personalidades femininas da cena.
“O rap tem uma dívida enorme com as mulheres”, ressaltou Rashid. “O bom é que o rap tem uma trajetória gigante, então tem muito tempo para realmente fazer as pazes e mostrar todo o devido valor da contribuição das mulheres para chegar onde chegamos.”
Paralelamente ao álbum, o MC deu início ao movimento Defensores da Arte do Gueto, iniciativa voltada a debates e fortalecimento da cultura periférica, reforçando o papel do hip-hop como agente de formação e transformação social.


Veja também
Rashid critica plataformas digitais e diz que mercado virou ‘máquina que tritura o pequeno artista’
KL Jay detona ostentação no rap nacional e diz que exibição de bens é cultural nos EUA
Jornalista revela que ouviu 4 músicas inéditas do novo álbum do Racionais MCs
Mano Brown, Ice Blue e Budah participam do BET Hip Hop Awards 2024 em Las Vegas