Travis Scott quer ser uma lenda e tem tudo para um dia ser considerado como tal

Há poucos anos Travis Scott ainda era um artista desconhecido. Sua primeira mixtape, “Owl Pharaoh”, de 2013, chegou para muitos como o primeiro testemunho de um artista que logo alcançaria o sucesso esperado, mas ainda assim perdurou apenas como um sucesso de nicho e pouco contribuiu para sua ascensão enquanto um dos principais rappers da atualidade.

Cinco anos depois, Scott lança “Astroworld”, aquele que seria o disco a colocá-lo no mapa como um grande artista, lhe garantindo indicações ao Grammy e um sucesso de venda até então inesperado. Muitos críticos definiram o álbum como o trabalho mais pessoal do rapper, o que pôde ser confirmado somente nesta semana, após o lançamento de “Voando Alto”, documentário sobre o artista gravado durante a produção de Astroworld.

Definir o mais recente filme da Netflix como um relato de trabalho, no entanto, é superficial e injusto a um filme que, assim como o rapper que lhe serve de objeto narrativo, tem a clara intenção de ser mais do que aparenta. Em 85 minutos de uma miscelânea bem construída de arquivos da infância de Travis e cenas originais, temos um retrato genuíno da força de um artista em ascensão.

O antes, durante e depois de Astroworld de fato é o fio condutor da narrativa de Voando Alto. Boa parte do segundo ato, por exemplo, se concentra na retratação de Travis Scott enquanto um artista de métodos, que realiza seu trabalho de modo excêntrico, mas sem deixar de lado a diversão e o encantamento de estar executando algo que sempre quis fazer. As cenas que mostram o rapper como criança são inseridas justamente para vender a premissa de um sonho sendo realizado, algo reforçado pelos trechos de entrevistas presentes na montagem.

O cognome de pop star, contudo, é a premissa reafirmada com mais força durante o filme. Passagens que mostram sua influência sobre os fãs dentro e fora dos palcos aparecem como numa validação da existência de um documentário sobre a trajetória de um artista que ainda tem muito a viver. A prática do stage diving (mergulho na platéia) que tanto define o lado performer de Travis Scott são bons exemplos dessa construção de um nome a ser cultuado como estrela.

Em pouco tempo de documentário, fica evidente a intenção do rapper para com sua carreira. Scott não quer apenas ter fãs e vender álbuns, seu alvo é ser uma lenda do rap e, por assim dizer, de todo o cenário musical. A narrativa do filme, associada à montagem inteligente, reforça essa ideia e a vende de modo bem-sucedido, deixando ao público apenas a alternativa de concordar com tal premissa e louvar Travis Scott e sua música como exemplos de um artista a ter seu nome lembrado no futuro.

O que talvez coloque o filme e a toda sua mensagem em uma situação mais fraca, entretanto, é decisão de não abordar passagens polêmicas da carreira do cantor. Seu relacionamento com Kylie Jenner, por exemplo, representa apenas um subtexto para validar o lado humano do artista. Da mesma forma, as críticas que recebeu por sua apresentação no Super Bowl 2019 estão no documentário apenas para fins de registro, algo que também é rapidamente abafado com a inserção de opiniões favoráveis.

Nada disso, no entanto, tira o mérito de Voando Alto e muito menos de Travis Scott. Sua força artística é facilmente comprada e o que de fato eleva o filme à categoria de obra prima. É injusto, portanto, esperar que um expoente de algo tão grande quanto Hip Hop se exponha de forma excessiva e coloque em risco a construção de imagem que vem alçando. Assim como seu filme, o rapper é feliz por ser bom no que faz e não ter vergonha de deixar isso claro. Por mais cedo que seja para definir Travis Scott como uma lenda, não é errado dizer que ele tem tudo para um dia ser considerado como tal.

Clique aqui e assista o documentário.